quinta-feira, 2 de julho de 2009

A dor em dobro da rejeição reaberta

Olá amigos!!

Estava meio sumida, eu sei, estava dando um tempinho enquanto todas as atenções estavam voltadas para o falecimento do Michael Jackson e quem sou eu para concorrer com Michael Jackson rssssss.

Mas estou de volta trazendo um tema polêmico e doloroso, a devolução de crianças adotadas. Tema para reflexão.

 
recebendo um filho
O ideal seria a exigência de um sério processo preparatório para a adoção
Lídia Weber* - O Estado de S.Paulo

- Recentemente uma notícia sobre a adoção de uma criança perturbou o imaginário de todos que refletem sobre parentalidade e filiação. Um casal conheceu uma menina de 8 anos em um abrigo, fez visitas por seis meses e pediu sua adoção. O casal ficou com a menina, cujo nome foi trocado - sem autorização judicial - durante oito meses e a devolveu ao juizado sem apresentar justificativa. A menina, que já chamava o casal de pai e mãe, voltou ao antigo abrigo sem saber explicar o que aconteceu e confusa em relação ao seu nome e identidade. Uma ação pública foi impetrada pelo Ministério Público e a Justiça deferiu que o casal será obrigado a pagar pensão para a criança no valor de 15% dos seus vencimentos mensais, a qual será utilizada para custear o tratamento psicológico particular da criança.

Infelizmente, apesar de a adoção ser legalmente irrevogável, esse tipo de "devolução" não é incomum no Brasil, e ocorre durante a guarda provisória ou após a adoção ter sido concretizada. Inéditos foram o pedido do Ministério Público e o deferimento da Justiça, apesar de esta ter demorado dez meses para sua decisão. Será que esses adotantes foram preparados de maneira correta? Será que essa menina teve algum apoio psicológico antes, durante e após a devolução?

A rejeição de um amor parental é uma das maiores dores do ser humano. Sabemos que isso não ocorre somente com famílias por adoção. As famílias geneticamente constituídas não "devolvem", mas podem maltratar (90% da violência contra a criança ocorre em casa), abandonar, machucar emocionalmente, negligenciar... Aliás, contrariando o senso comum, dados antropológicos mostram que maus-tratos em famílias por adoção ocorrem com muito menor frequência do que em famílias biológicas.
A adoção é uma instituição com séculos de existência. Desde as primeiras civilizações, costumava-se adotar uma criança como uma forma de manutenção da família ou para perpetuar o culto ancestral doméstico. O objetivo principal não era necessariamente "proteger a criança"; a adoção tinha somente o objetivo de ser um instrumento para suprir as necessidades de casais inférteis e não como um meio que pudesse dar uma família para crianças abandonadas. Essa modalidade de adoção é conhecida como "adoção clássica", e ainda hoje, no Brasil, predomina em detrimento da chamada "adoção moderna", cujo objetivo é garantir o direito a toda criança de crescer e ser educada em uma família.

O Brasil herdou o modelo português das Santas Casas de Misericórdia em relação à "proteção" de crianças. Durante séculos o nascimento de um filho "ilegítimo" foi ostensivamente reprovado, ocasionando inúmeros abortos e infanticídios. Tentou-se criar um mecanismo social, embora hipócrita, que solucionasse esses escândalos - a roda dos enjeitados ou dos expostos, que permitia o abandono anônimo de bebês. As "rodas" existiram no Brasil até a década de 50 e fomos o último país do mundo a acabar com elas. A história mostra que, até final do século 19, havia famílias - ditas beneméritas - que criavam as crianças como agregadas. No entanto, tais famílias nem sempre eram tão beneméritas, pois acabavam retirando as crianças das instituições para que elas servissem como serviçais domésticas em suas casas. Muitos séculos se passaram, mas uma pesquisa que realizamos há alguns anos revelou que ainda existem pessoas que acreditam que "é possível adotar uma criança mais velha para que ela ajude nos serviços de casa".

Em algumas culturas existem poucas crianças abandonadas, mas no Brasil milhares de crianças vivem em instituições e dezenas de recém-nascidos são abandonados em lugares públicos e não há sequer estatísticas oficiais para saber os número corretos. A implementação do Cadastro Nacional de Adoção, há cerca de um ano, mostra pouca eficácia, ausência de recursos e treinamento e passou a esconder ainda mais as crianças que vivem em abrigos, pois somente são colocadas no cadastro aquelas cujos pais foram destituídos do poder familiar, que não passam de 10% das crianças abrigadas. Quais são os antecedentes que nos revelam o descaso pela criança, apesar de termos o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), considerado um dos mais avançados do mundo?

Em países desenvolvidos os adotantes devem passar obrigatoriamente não apenas pela parte burocrática, mas por um longo e sistemático processo de preparação para a adoção. Em caso de adoções tardias, comuns em outros países, a preparação e apoio psicológico também se estendem à criança. No Brasil, raros são os Juizados da Infância que oferecem essa real preparação aos adotantes e à criança e há muitos que nem sequer possuem equipe técnica para a questão. Simplesmente "examinam" e "selecionam", o que pode significar simplesmente aprovar os documentos solicitados e realizar uma visita à residência dos candidatos.

Quando existe algum tipo de "preparação", geralmente são realizados poucos encontros e quem os faz é parte da sociedade civil, membros de grupos de apoio à adoção, associações geralmente formadas por voluntários que doam seu tempo com o objetivo de fomentar uma consciência para o papel social da adoção no País. Alguns juizados nem reconhecem essa  tentativa heróica e altruísta dos grupos de apoio, enquanto outros, mais engajados, fizeram-na parte obrigatória do processo.

Uma preparação para a adoção vai além de uma educação para a parentalidade genética, mas a engloba completamente. Quem deseja adotar uma criança deve aprender a lidar com a frustração da infertilidade (se esse for o motivo da adoção), conhecer outras famílias adotivas, tolerar a espera do processo, adquirir habilidades para lidar com preconceito, saber falar da origem da criança, entender as dores do abandono, especialmente em uma adoção de criança mais velha, etc.

A educação para ter um filho, genético ou adotivo, refere-se a uma reflexão sobre as próprias motivações, riscos, expectativas, desejos e medos. Filhos, genéticos ou por adoção, não estão no mundo para atender às necessidades dos pais, não são cópias nem massa de modelar, não devem servir nem como expiação à culpa nem como instrumentos de caridade. Filhos são seres únicos cujos pais assumiram o compromisso de guiar, socializar e auxiliar o seu desenvolvimento, que inclui a noção de afeto que levará durante toda sua vida. Preparar-se não quer dizer somente o momento que antecede o ''ter um filho'', mas a consciência de que essa educação deve ser contínua, pois pessoas estão sujeitas a mudanças e estão sempre em um processo dinâmico de construção e reconstrução. Educar-se para ter um filho é estar pronto para acolher e ter a função de um porto seguro. Para sempre.

*Psicóloga, professora e pesquisadora da UFPR, pós-doutora em Desenvolvimento Familiar e  autora de Pais e Filhos por Adoção no Brasil (Ed. Juruá)

beijinhos

4 comentários:

Teresa Carneiro disse...

Olá Leticia...seu blog é maravilhoso e tem um amor único inspirador...parabens pelo artigo...trabalho como pedagoga há 25 anos e sei bem o que é rejeição...não chegamos a ter uma criança rejeitada mas a situação foi complicada....vou estar sempre aqui seguindo esse seu cantinho especial...bjs no coração..Teresa Carneiro

Letícia Godoy disse...

Olá Teresa,
Muito obrigada por seus elogios, é muito importante para mim ler isso, ainda mais vindo de uma pedagoga.
Esse cantinho é nosso. Fique a vontade e volte sempre mesmo. Tb estou aberta a contribuições, caso vc tenha algum material interesante para ser postado aqui, pode enviar.
beijinhos no seu coração tb querida

Anônimo disse...

Leticia estou desesperada pois nao estou conmseguindo me adaptar a minha filha adotiva, na verdade tenho só a guarda o processo de adocao ja se arrasta pra quase quatro anos do irmao dela e dois do dela o que tem me desgastado muito tambem, nao consigo ama-la como devia e tudo nela me irrita as coisas que ela faz me irrita.Nao sei o que fazer ja pensei por vezes em devolve-la,nao sei se suportaria saber da tristeza desta crianca sendo mais uma vez regeitada e nem meu sentimento de culpa por ter abandonado e regeitado alguem que só esta querendo ser amada e aceita como é.O que faco por favor me ajude.

Letícia Godoy disse...

Olá,

Agora vc me deixou numa saia justa. O meu conselho é: procure ajuda profissional, psicólogo mesmo, pois ele poderá lhe orientar muito melhor do que eu que não tenho formação nessa área.

Até pq um profissional vai pequisar mais profundamente, saber sua história, e lhe ajudar a descobrir o pq de tanta rejeição. Não deixe para amanhã, até pq vc já esperou tempo demais, procure ajuda imediatamente e resolva essa situação o qto antes.

Espero que tudo se resolva e termine bem.

beijinhos no seu coração

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