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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Em busca dos pais biológicos

Filhos adotivos se unem em todo o país em busca das próprias origens – o que pode até salvar vidas
MARTHA MENDONÇA


Trabalhador autônomo e pai de duas crianças, o pernambucano Edilson José da Silva, de 26 anos, ficou sabendo há pouco mais de um mês que tem leucemia. Os médicos disseram que ele poderia ser salvo por um transplante de medula. Adotado ainda bebê, Edilson não conhecia a família biológica – onde teria mais chance de encontrar um doador compatível. Quem foi atrás da mãe biológica foi a mãe adotiva de Edilson, a dona de casa Maria de Lourdes da Silva. Em poucos dias, ela reuniu pistas e encontrou, no interior de Alagoas, a auxiliar de enfermagem Maria José Lins. Assim que soube do paradeiro do filho, Maria José saiu da cidade alagoana Joaquim Gomes rumo ao Recife. O primeiro encontro dos dois aconteceu na semana passada. Entre risos e lágrimas, Edilson disse viver um sonho. “De repente, tenho duas mães, é felicidade demais.” Graças a esse encontro, Edilson descobriu ter uma irmã biológica, que mora em Mato Grosso e já se dispôs a fazer os exames para saber se sua medula é compatível, o que ocorre em 25% dos casos entre irmãos. “Rezo para que dê tudo certo. Quero fazer de tudo para ajudar meu filho. É uma maneira de eu corrigir o que fiz”, afirma Maria José.


O caso de Edilson é mais comum do que se imagina. Em todo o país, centenas de filhos adotivos estão à procura dos pais biológicos. Mais que simples curiosidade, encontrá-los pode ser a chave para o diagnóstico e o tratamento de doenças genéticas que dependem de transplantes de parentes próximos. A associação Filhos Adotivos do Brasil, criada na internet, já tem 300 membros e se tornou um importante grupo de pressão pela mudança das leis que regem a adoção no Brasil. No Orkut, há cerca de 200 comunidades sobre adoção, sendo algumas dedicadas à procura dos pais. Na comunidade Filhos Adotivos Procuram Por, com 180 membros, internautas publicam informações que possam ajudar a localizar os pais biológicos, como dados físicos e hospital onde ocorreu o parto.


Foi com a ajuda da Filhos Adotivos do Brasil que no dia 8 de dezembro a vendedora Ana Paula dos Santos Dias, de 27 anos, viu pela primeira vez a mãe, a pequena empresária Maria Abegair Dornelles, de 48. As duas passaram muito tempo abraçadas na rodoviária de Porto Alegre. Dona Abegair embalou a filha como só havia feito uma vez, em 14 de janeiro de 1981, quando deu à luz Ana Paula. Ao contrário daquele dia, dessa vez foi dona Abegair quem chorou. Ela era empregada doméstica e entregou o bebê para adoção um dia depois do parto, ainda na maternidade. Ana Paula cresceu, casou-se e teve um filho, Eduardo, hoje com 6 anos, de olhos azuis – como dona Abegair. “Foi como se eu estivesse encontrando comigo mesma”, disse Ana Paula. “De repente, ganhei uma filha e um neto maravilhosos”, afirmou dona Abegair.


Por quase um ano Ana Paula – que perdeu a mãe adotiva aos 15 anos – se envolveu em uma teia de informações até descobrir o paradeiro da mãe biológica. Ela iniciou a procura pelo hospital onde nasceu. Achou a enfermeira que a entregou à família adotiva, obteve na Justiça o acesso ao prontuário de seu nascimento, bateu na porta dos ex-patrões da mãe biológica, até que conseguiu o telefone de dona Abegair, na cidade de Salinas, a 30 quilômetros de Montevidéu, no Uruguai, onde ela tem um pequeno restaurante. Hoje, as duas se falam diariamente por telefone e passam juntas os fins de semana. “Meu filho a chama de vovó desde o primeiro dia. Eu ainda estou me acostumando a chamá-la de mãe”, diz Ana Paula, que agora quer encontrar o pai.


Segundo o fundador da Filhos Adotivos do Brasil, o empresário José Ricardo Fischer, em apenas um ano 28 membros encontraram os pais e outros dez casos estão próximos da solução. A associação já tem 300 membros. Os relatos publicados no site (filhosadotivosdobrasil.com.br) servem de orientação e incentivo para quem quer iniciar a procura. Na semana passada, a associação organizou um fórum em Porto Alegre. Discutiram-se desde as leis de adoção até o polêmico projeto de lei do “parto anônimo”, que defende o direito ao anonimato para a grávida que queira doar seu filho. A maioria dos participantes considera o projeto um retrocesso, por dificultar a localização dos pais biológicos.


No Brasil, ainda não existe um cadastro único para acompanhar as adoções legais. A Secretaria Especial de Direitos Humanos afirma que “está trabalhando” para isso – uma promessa antiga. Hoje, apenas em alguns Estados há comissões judiciárias que mantêm estatísticas. Em alguns deles, foi possível registrar um aumento significativo de casos de adoção. Em São Paulo, de 2004 a 2007, o número cresceu de 3.182 para 4.497. Segundo dados do Ipea, o Instituto de Política Econômica Aplicada, há cerca de 10 mil crianças aptas à adoção em instituições e abrigos de todo o país (leia o quadro abaixo).


Crianças negras e mais velhas têm mais dificuldade para encontrar pais adotivos
10 mil crianças estão disponíveis para adoção em instituições e abrigos
Os pais adotivos “típicos” são casados, católicos, na faixa de 34 anos, ensino médio ou superior completo e renda acima da média da população
98% dos pais adotivos são brancos e querem um filho da mesma cor. A maioria prefere adotar bebês


O relato do próprio fundador da Filhos Adotivos do Brasil é um retrato fiel de como pode ser difícil o reencontro com os pais biológicos. José Ricardo Fischer, de 41 anos, foi abandonado em um orfanato com 1 ano. Aos 2, foi adotado por uma família de classe média. Ainda pequeno, soube que não era filho biológico. Adolescente, revelou aos pais o desejo de conhecer a mãe verdadeira. “Não obtive ajuda. Chegaram a me dizer que ela tinha morrido”, afirma. Aos 15 anos, ele achou o documento de doação, em que constava o nome da mãe: Ana Aurora Vilarinho. Por muitos anos, fez pesquisas em cartórios. Tudo em vão. Prestes a ser pai pela primeira vez, aos 27 anos, intensificou as buscas e encontrou um tio juiz.


Descoberto o paradeiro da mãe, foi atrás dela no mesmo dia. Ana Aurora estava trabalhando como mesária nas eleições em Viamão, no Rio Grande do Sul. “Nosso primeiro encontro aconteceu num ginásio com mais de mil eleitores”, diz Fischer. “Eu a reconheci de longe. Foi instintivo.” A procura não parou aí. Fischer descobriu que tinha um irmão gêmeo, também dado para adoção – expulsa de casa grávida, Ana Aurora não tinha condição financeira de criar dois bebês. Buscou pistas sobre o irmão, mas não obteve a ajuda da mãe biológica. Com o tempo, os dois se afastaram. Não se vêem há dez anos. “Ainda tenho esperanças de encontrar meu irmão”, afirma. Do encontro com a mãe surgiu a idéia de fazer um site que fosse um espaço para a troca de experiências e rede de informações.


Além da questão médica, saber a razão do abandono é outra motivação para os filhos adotivos. O assistente-financeiro carioca Luiz Henrique Sousa, de 30 anos, espera um final feliz para sua história. No fim do ano passado, ele se inscreveu na Filhos Adotivos do Brasil e busca as primeiras pistas. Adotado com 1 mês de vida pelos porteiros do prédio onde sua mãe teria trabalhado como babá, desde adolescente ele sonha conhecer a mãe biológica. “Mas não só ela. Posso ter irmãos, primos, tios, muita gente para conhecer e amar”, diz. Segundo ele, algumas pessoas o acusam de ser ingrato com os pais adotivos. “Mas só quem é adotado entende esse sentimento. É a necessidade de correr atrás da própria história”, afirma. Precila Corrêa, de 59 anos, mãe adotiva de Luiz Henrique, diz que não se importa. “Eu sempre contei a verdade a ele. Como sua mãe de coração, dei o melhor que pude e continuo querendo a felicidade do meu filho. Se isso depende de ele encontrar a mãe biológica, dou todo o apoio.” Nem sempre os pais adotivos compreendem a necessidade dessa procura, diz Ricardo Fischer. “Muitos se sentem ofendidos. No começo, os meus omitiram dados e me deram informações nebulosas para me confundir.”

Especialistas em adoção dizem que filhos adotivos têm todo o direito de procurar sua família biológica – assim como acreditam que a origem da criança deve ser revelada já nos primeiros anos de vida. Para a psicóloga e coordenadora da ONG Terra dos Homens, Claudia Cabral, que já trabalhou em mais de 80 casos de adoção, assim que a criança ou o jovem manifestar desejo de saber sua história, ela deve ser revelada – com tato e de forma adequada a sua idade. “Nesse ponto, acho positivo o trabalho desta associação”, diz. O juiz Reinaldo Cintra, que trabalhou em varas de infância de São Paulo por quatro anos, afirma que, quando acontece a busca da própria identidade, os pais adotivos não devem duvidar do amor dos filhos. Cintra ressalta a necessidade de respeito a todas as partes envolvidas. “Os pais biológicos não são obrigados a aceitar os filhos que aparecem de repente. Há culpa e vergonha envolvidas, e nem sempre as expectativas dos filhos se concretizam”, diz. Cobrar os pais biológicos pelo abandono, logo no primeiro encontro, pode pôr em risco uma relação que deveria ser enriquecedora para as duas partes.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com 14/04/2008

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