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quarta-feira, 8 de abril de 2009

“Eu dei o meu filho em adoção”


LAÇO DESFEITO
Por Fernanda Cirenza

Elas entregaram os filhos em adoção e tiveram suas vidas marcadas pelo estigma da mãe que abandona. A seguir, duas mães biológicas contam os fantasmas que vivenciam desde o dia da separação e uma psicóloga tenta explicar os motivos da decisão. Além disso, um homem relata sua experiência de crescer ao lado da família que o acolheu.

É difícil não julgar a mãe que entrega o filho em adoção. Condenada ao silêncio, essa mulher vive isolada dos reflexos de seu ato de violência. 'É uma situação de luto, de perda de amor-próprio e do sentido da vida', diz a psicóloga Maria Antonieta Pisano Motta, que produziu uma inédita pesquisa sobre os motivos que levam uma mulher a seguir adiante com uma gravidez, mas abdica da experiência de ser mãe.

A surpresa do estudo, que envolveu dez mulheres em situação de pré e pós-parto acolhidas por uma instituição de São Paulo, é que a alegação de falta de condições financeiras caiu por terra. Essa justificativa seria uma espécie de escudo para amenizar a dor da separação. 'A limitação financeira existe, mas o principal motivo é a falta de patrimônio emocional para assumir a maternidade', diz a psicóloga. 'Elas não tiveram a segurança necessária para se tornarem mães. Muitas não contaram, durante a gravidez, com o apoio da família e principalmente do pai da criança para seguir com seu filho. São capazes de gerar, mas incapazes de serem mães.

Autora de um livro de título perturbador -'Mães Abandonadas: a entrega de um filho em adoção' (Ed. Cortez)-, Maria Antonieta lança um novo olhar sobre essas mulheres e resume: 'São abandonadas porque as colocamos à margem até de nossas considerações pessoais. Quando se fala em adoção, pensamos nas angústias da criança e dos adotantes, mas nunca das inquietudes da mãe biológica'.

Marie Claire conversou com duas mulheres que abriram mão de seus bebês quando ainda tinham dias de vida. Angustiadas com a decisão que tomaram no passado, elas têm opiniões diferentes sobre a entrega.



MARCADA PELO ARREPENDIMENTO
'Namorava há um ano com um rapaz quando engravidei. Eu tinha 21 anos. A gente já tinha transado outras vezes, mas naquela noite nem pensei em prevenção. Foi uma relação de despedida porque ele estava saindo da cidade onde morávamos, no interior de Minas, para viver em São Paulo. Só descobri a gravidez umas três semanas depois da partida dele e não quis aceitar que iria ser mãe.
Apesar da distância, a gente continuou namorando. Falava sempre com ele pelo telefone, mas não tinha coragem de contar que estava grávida. Fui tomada por um sentimento esquisito, de repulsa e negação da maternidade. Só sentia medo, vergonha, raiva. Pensava no que o meu pai, que era severo, faria comigo. Minha mãe é religiosa e talvez não me condenasse. A única pessoa que soube foi uma amiga, que me aconselhou a abortar. Mas não tive força para fazer isso, nem hoje eu teria.

Não me perdôo por não ter sentido nada de bom. Sentia tudo, menos alegria. Entrei num desespero enorme e tomei a pior decisão da minha vida: mudar de cidade para ter o bebê escondido. Arrumei um emprego em Brasília e fui para lá aos cinco meses de gravidez. Neguei tanto essa criança que nem barriga eu tinha. E me cobrava por isso. Como não podia aceitar o bebê? Que espécie de mulher sou eu? No trabalho, fiz amizade com uma senhora em quem confiei e ela me sugeriu doar o bebê. Disse que conhecia uma família boa que queria um recém-nascido. Fiquei com isso na cabeça. Entregar a criança seria a saída para o meu problema. Cheguei até a pensar que voltaria para a minha cidade como se nada tivesse acontecido.

Ela sempre tocava no assunto, sabia da minha tentação pela entrega, embora eu não afirmasse que iria entregá-lo. Isso só aconteceu três dias antes do parto. Eu a chamei e pedi que acertasse os detalhes com a família que queria um bebê. Meu menino nasceu e, quando o recebi, não podia olhar nos olhos dele. Parecia que ele sabia o que estava para acontecer. Mal conseguia pegar ele no colo. O pior é que não reagia contra nada disso. Fiquei com ele quatro dias. Na alta, a tal senhora foi me buscar na maternidade e me levou para a casa dela. Foi lá que assinei um papel em que abro mão da criança e onde a entreguei. Ele tinha acabado de mamar e estava acordado.

Sem a menor condição para nada, fiquei alguns dias morando na casa dessa senhora. Eu só chorava e ela me consolava, dizendo que a criança ficaria bem. Tudo o que eu sentia era ódio de mim mesma. E o que mais me perturbava é que não tinha ido atrás de ninguém para dar meu filho, as coisas aconteceram e não fiz nada para impedir. Fui covarde demais. Não conseguia me desligar do que tinha acontecido. Comecei a me entupir de trabalho na tentativa de me refazer. Mas só ficava me perguntando: 'Como fui capaz de dar o meu filho?'.

Depois de uns seis meses, decidi ter o meu filho de volta. A senhora que me ajudou na entrega não gostou nada da minha conversa e disse que era impossível eu reaver o menino e que ela não me daria nenhuma informação. Eu não sabia quem era a família, não sabia onde morava, nada. Por dois meses, tentei achar pistas que me levassem a ele. Voltei à maternidade, falei com pessoas que conheciam essa senhora, mas não tive sucesso, até conhecer uma sobrinha dela que me contou o sobrenome dos adotantes. A essa altura, meu filho já tinha mais de 1 ano.

Contratei um advogado e entrei com um processo para reaver meu filho. Foram mais dois anos de espera e de incertezas. Sempre ia ao fórum ver o andamento do processo, mas saía de lá sem esperanças. Os psicólogos diziam que o meu filho estava bem amparado, feliz, numa boa família. Ficava aliviada e desolada ao mesmo tempo. Foi muito tempo de angústia até o dia da decisão do juiz. Na audiência, conheci os pais de Tiago [o nome é fictício, o verdadeiro foi dado pelos pais que o adotaram]. Eu chorava, a mãe dele também. O pai estava bastante nervoso. Nessa reunião, o juiz declarou que eu tinha perdido a guarda, mas poderia ver o menino a cada 15 dias. Não havia mais nada a ser feito. Eu e os pais só podíamos aceitar a situação.

Vi Tiago pela primeira vez depois da entrega quando ele tinha quase 3 anos. Eu estava tensa e com medo. Não sabia o que podia acontecer. Quando cheguei à casa, meu menino tomava banho. Podia ouvir o que a mãe dele falava: 'Filho, você vai conhecer uma tia'. Fiquei meio assim com essa coisa de 'tia', mas não dava para chegar de cara e contar que eu sou a mãe dele. Esse encontro foi muito mais emocionante pra mim do que pra ele, claro. A mãe dele estava visivelmente incomodada com a minha presença, mas não me destratou. Ao contrário, fez de tudo para que aquela situação fosse a mais tranqüila possível.

Fiquei umas duas horas brincando com ele, que gostou de mim, mas criança é assim mesmo. É só dar uma trela que dá tudo certo. E assim foram acontecendo outros encontros. Primeiro eram quinzenais, depois semanais e hoje sempre que quero ou ele quer. A mãe nunca escondeu que ele foi adotado. Ela dizia, e ainda diz, que é a mãe de coração. Ele continuava me chamando de 'tia' até que um dia uma prima, que tinha uns 12 anos na época, contou que eu sou a mãe. Ele estava com 6 anos e ficou curioso. Quis saber por que sou a mãe. Conversei com a mãe dele e, juntas, levamos a verdade adiante. Não foi de uma vez. Primeiro, disse que ele tinha saído da minha barriga, que tive problemas e ele ficou com a outra mãe. Agora ele sabe que tem duas mães e me chama de mãe também.

Ele ainda é pequeno, vai fazer 10 anos, não tenho certeza se ele entende tudo. Há dois anos, saí de Brasília para viver em São Paulo. Agora, só o vejo nas férias. Eu o amo, só que perdi a chance de ser a mãe. Cometi um erro enorme, não dá para achar uma só palavra que me condene. Eu estou namorando um rapaz que conhece toda minha história. Ele não me julga. Quem sabe um dia a gente tenha um filho. Se isso acontecer, vou fazer tudo diferente.'
Irani*, 32 anos, autônoma, solteira


Para esquecer o passado
'Entreguei meu filho há 12 anos. Ele tinha quatro dias de vida, foi na porta da maternidade, na calçada. Eu não tinha a menor condição de criá-lo. Dar um filho é uma dor enorme. Para diminuir esse sentimento de culpa que carrego até hoje, adotei uma menina de 11 anos. Com certeza, ela apareceu na minha vida para me ajudar a pagar a dívida que fiz no passado. Ela foi abandonada, vivia num abrigo. Está comigo há quatro anos.

O filho que dei é fruto de um relacionamento curto que tive quando morava em São Luís. O pai tinha um bom emprego, mas disse que o bebê não era dele. Nossa história acabou com o resultado positivo do exame. Fui morar na casa de minha irmã, que é casada e também estava grávida. Ela me acolheu, mas me recriminava por estar esperando uma criança sem ter marido e minha própria casa.

No início, não pensava em dar a criança, mas não sabia como iria criá-la. Não tinha emprego e não via perspectiva de melhorar de vida naquela cidade. Não enxergava um futuro para mim nem para ela. Estava entrando no sexto mês quando uma comerciante de São Luís, que já conhecia há tempos, me sugeriu a doação. Disse que seria melhor para mim e para o bebê. Ela tinha muitos contatos. Passei o resto da gravidez pensando nisso e percebi que ela tinha razão. Não queria que o bebê sofresse.

Meu filho nasceu de cesárea porque quis fazer laqueadura. Se engravidei para dar a criança, pensava que não tinha mais o direito de gerar outras. Essa foi a minha autopunição. Na maternidade foi horrível, porque eu olhava para ele e não tinha aquele desejo de dar. Mas entreguei. A comerciante foi à maternidade com a futura mãe dele. Não olhei muito para o rosto dela, tive vergonha e me senti humilhada. Só lembro do cabelo, que era encaracolado.

Eu tinha dado de mamar, trocado a roupinha e ninado para que ele dormisse. Quando as duas mulheres chegaram, hesitei, mas logo foram pegando o bebê e me apressaram na despedida. Uma delas disse que era melhor a gente ser breve, que eu não devia me apegar naquele momento. Foi tudo muito rápido. Elas me colocaram num táxi, pagaram o motorista e foram embora. Não assinei nada. Depois desse dia, nunca mais vi o meu filho.

Um mês e meio depois, saí de São Luiz para viver em Betim (MG), recomeçar a minha vida. Arrumei um emprego em que não ganhava muito, mas deu para pagar os meus estudos. Consegui concluir o Segundo Grau e estou tentando entrar na faculdade. Sonho em um dia ser advogada. Minha situação financeira melhorou muito nesses anos todos. Quando penso no que fiz, me arrependo profundamente. Eu devia ter lutado para ficar com o meu filho.

Sei que a adoção dele foi ilegal e também sei que posso reaver meu filho, mas não penso nisso. Não sou mais a mãe dele. Aceitei a idéia da entrega e não tenho o direito de tirar o sossego dele ou da família que o acolheu. Se um dia eu o reencontrar, só espero que me perdoe.

Tempos depois, me casei. Meu marido adora crianças e, como eu já não podia mais engravidar, decidimos pela adoção. Começamos a freqüentar um abrigo em que tinha muitos meninos com mais de 7 anos. A gente ia visitá-los todos os finais de semana. Um dia, Cris*, que tinha 11 anos na época, disse que queria ser nossa filha, ficar na minha casa. Essa conversa nos emocionou tanto que ela está com a gente até hoje.'
Vera*, 34 anos, vendedora, casada



À procura da mãe
O cineasta e antropólogo Kiko Goifman, 35 anos, foi adotado ao nascer em Belo Horizonte. Cresceu sabendo que Berta e Jayme não são seus pais biológicos. Irmão de Márcia, adotada três anos antes, Kiko chegou à família de maneira ilegal: não há documentos que atestem a entrega ou dêem pistas sobre o seu passado. O enredo real levou Kiko a produzir, dois anos atrás, o seu primeiro longa-metragem, '33', em que conta a procura pela mãe biológica que nunca encontrou.

Marie Claire O filme expõe toda a sua história. Não ficou preocupado?
Kiko Goifman Há algum tempo pensava em produzir um documentário sobre adoção. Poderia ter feito um filme sobre o assunto de várias maneiras. Uma delas seria entrevistar vários adotados. Mas achei isso chato. O '33' é um projeto que faz todo o sentido dentro dos meus projetos. Trabalho há dez anos pesquisando o tema violência [Kiko é autor de livros sobre prisão e diretor dos documentários 'Tereza', sobre o cotidiano de detentos, e 'Morte Densa', em que apresenta assassinos que mataram uma única vez], e o '33' é um filme de autoviolência.

MC Por quê?
KG Por causa da exposição da história que foi violenta para mim, para a minha mãe. O filme escancarou nossas vidas. Todo o processo foi muito doloroso e eu não queria machucar a minha mãe. Não estava procurando ninguém para substituí-la. Era uma curiosidade, queria saber sobre a minha origem. Isso foi difícil. Durante a busca, o desejo de encontrar essa mulher oscilava muito. Também tive medo de encontrá-la. E se isso acontecesse? Determinar o prazo de 33 dias para encontrá-la foi fundamental porque, já no primeiro dia, pensava: 'Bom, só faltam 32'.

MC Quando você soube que foi adotado?
KG Sempre soube, meus pais nunca esconderam. Até por isso decidi buscar a minha mãe biológica com a minha mãe viva. É quase uma devolução ética que eu tinha com ela. É comum, até em filmes de ficção, que a procura pela mãe biológica comece com o enterro dos pais adotivos. Quis mexer no meu passado com pelo menos minha mãe viva [o pai de Kiko morreu em 1998].

MC Vê problemas em ser adotado?
KG Não, caí numa família ótima, tive muita sorte. Tenho uma relação de amor sólida e recíproca com a minha família, senão não faria esse filme. Também nunca escondi que fui adotado. Ao contrário, quando era criança sempre falava da minha adoção nos momentos mais inesperados. Devia ter uns 7 anos quando apostei um brinquedo com um primo da minha idade que eu tinha sido adotado. Ele foi correndo perguntar para a minha mãe, que confirmou. Era engraçado nas aulas de genética, quando a professora mandava a gente observar o lóbulo da orelha dos pais. Tenho o lóbulo grudado, que é raro, e, claro, meus pais têm o lóbulo solto. Era, no mínimo, esquisito me deparar com essas coisas.

MC Nunca te atormentou não saber nada sobre a sua mãe biológica?
KG Claro que sim, não conseguiria ser tão frio. No filme, eu estava de fato procurando essa mulher. Precisava ter uma sinopse dela, saber três ou quatro linhas sobre ela. Conceição, uma pessoa que trabalha há anos na casa de minha mãe, falava que a minha mãe biológica era muito jovem quando me teve, tinha nascido no interior de Minas e ido para Belo Horizonte para me ter. Dizia que ela estava na hora em que fui adotado. Essa imagem da Conceição alimentou toda a minha infância e adolescência. Quando fui fazer o filme comecei a questionar o que ela falava. Posso ser qualquer coisa, fruto de estupro, filho da p., sei lá.

MC Sente raiva da sua mãe biológica?
KG Não, nunca tive. Fico imaginando que, se fosse hoje, provavelmente eu teria sido abortado. E não tenho o menor problema com isso, não sou contra o aborto. Mas, se eu não tivesse nascido, nada disso estaria acontecendo.

MC Não carrega o fantasma da rejeição?
KG As pessoas acham que a adoção perturba o tempo todo. Mas, para mim, o fato de ter sido rejeitado em algum momento não me perturba. É óbvio que alguma situação de rejeição aconteceu, mas não me criou dramas psicológicos. Tenho um filho de 10 meses e, quando soube que minha mulher estava grávida, quis que ela tivesse a melhor gravidez do mundo. E acabei pensando na minha gestação. Talvez a minha mãe biológica não tenha tido uma gravidez bacana.

MC E o seu pai biológico?
KG Não sei, eu acho que nunca tive curiosidade de saber quem é ele. Não sei explicar muito isso. Fico pensando que, se ele tivesse apoiado a gravidez, provavelmente eu teria ficado com a minha família de origem. É difícil pensar nele como um cara presente. É mais fácil imaginar que ela foi uma mulher fragilizada diante da situação.
Kiko Goifman, 35 anos, cineasta e antropólogo



Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com

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